Tag: maternidade consciente

  • Que tipo de mãe você se torna diante das dificuldades do seu filho?

    Como reconhecer nossos padrões de reação pode transformar a
    maneira como educamos, acolhemos e construímos a autonomia dos nossos
    filhos.

    Você já percebeu que, diante de uma mesma situação, duas mães podem
    reagir de maneiras completamente diferentes?

    Imagine uma criança de dois anos que começa a chorar porque quer
    colocar os próprios sapatos, mas ainda não consegue. Uma mãe pode se
    irritar, pegar os sapatos e terminar a tarefa rapidamente. Outra pode
    ficar tão incomodada com o choro que acaba desistindo de sair. Há também
    aquela que tenta resolver tudo pela criança, porque acredita que ela não
    será capaz de fazer sozinha.

    E existe uma outra possibilidade: a mãe que se aproxima, reconhece a
    frustração do filho e oferece a ajuda necessária, sem retirar dele a
    oportunidade de tentar.

    Nenhuma dessas reações acontece isoladamente. Nossa maneira de
    responder aos filhos pode ser influenciada pelo cansaço, pelas
    experiências que tivemos, pelas expectativas que construímos sobre a
    maternidade e pela forma como aprendemos a lidar com nossas próprias
    emoções.

    Por isso, compreender o comportamento infantil também exige olhar
    para quem está cuidando.

    Às vezes, o maior desafio não está no comportamento da
    criança, mas naquilo que esse comportamento desperta dentro de
    nós.

    O que nossas reações
    revelam sobre nós?

    Durante meus estudos em Psicologia Materna, conheci um modelo de
    reflexão sobre quatro estados de poder que podem aparecer nas relações
    humanas: destruidor ou desistente, controlador, dependente e
    cooperativo.

    Na formação, esses estados são apresentados como diferentes maneiras
    de nos posicionarmos diante de nós mesmos, dos outros e das situações
    que vivemos.

    É importante compreender que não estamos falando de diagnósticos
    psicológicos ou de quatro tipos fixos de personalidade. Trata-se de uma
    proposta de observação dos nossos padrões de comportamento. Uma mesma
    pessoa pode apresentar reações diferentes conforme o contexto, o estado
    emocional e os recursos de que dispõe naquele momento.

    Na maternidade, essa reflexão ganha um significado especial.

    Porque uma criança não desperta apenas amor, carinho e proteção. Ela
    também pode despertar inseguranças, impaciência, medo de errar,
    necessidade de controle e sentimentos que nem sempre sabemos
    reconhecer.

    E, quando não percebemos o que está acontecendo dentro de nós,
    podemos acabar respondendo mais à nossa própria dificuldade emocional do
    que à necessidade real do nosso filho.

    Os
    quatro estados e como eles podem aparecer na maternidade

    1.
    O estado destruidor ou desistente: quando a dificuldade nos faz
    recuar

    No material de Psicologia Materna, o estado destruidor ou desistente
    é associado à tendência de travar, afastar-se ou abandonar situações
    quando surgem dificuldades.

    Na maternidade, podemos imaginar esse padrão aparecendo em uma mãe
    que tenta estabelecer uma rotina, encontra resistência da criança e
    rapidamente conclui que nada vai funcionar.

    Ela pensa: “Não adianta tentar. Meu filho nunca vai conseguir.”

    Talvez tenha começado a organizar os horários de sono, mas, depois de
    algumas noites difíceis, abandona completamente a tentativa. Ou deseja
    incentivar a autonomia da criança, mas desiste assim que encontra as
    primeiras frustrações.

    Não significa que essa mãe não se importe. Às vezes, ela está tão
    sobrecarregada que não consegue enxergar alternativas.

    Existe uma diferença importante entre reconhecer que algo precisa ser
    interrompido e desistir porque acreditamos que somos incapazes de
    encontrar outro caminho.

    A primeira atitude pode ser necessária e saudável. A segunda merece
    atenção, especialmente quando se repete em diferentes situações.

    A pergunta que essa mãe pode fazer a si mesma é:

    “Estou mudando de estratégia porque observei uma necessidade
    real ou estou desistindo porque acredito que não vou
    conseguir?”

    Na prática, pode ser mais útil diminuir as expectativas, escolher uma
    pequena mudança possível e buscar apoio do que tentar transformar toda a
    rotina de uma só vez.

    2.
    O estado controlador: quando precisamos que tudo aconteça do nosso
    jeito

    O estado controlador é apresentado na formação como uma postura
    marcada pela necessidade de conduzir as situações e pela dificuldade de
    confiar nos outros.

    Na maternidade, esse comportamento pode aparecer de maneiras bastante
    sutis.

    A mãe organiza os horários, prepara as refeições, estabelece a rotina
    e deseja que tudo aconteça conforme o planejado. Até aqui, não existe
    necessariamente um problema. Crianças precisam de organização,
    previsibilidade e limites.

    A dificuldade começa quando a necessidade de controle não deixa
    espaço para a criança participar, experimentar ou demonstrar suas
    próprias necessidades.

    Imagine uma criança aprendendo a comer sozinha. Ela segura a colher
    de maneira desajeitada, derrama um pouco de comida e demora mais do que
    a mãe gostaria.

    A mãe, incomodada com a demora e a bagunça, toma a colher e termina
    de alimentá-la.

    Ela resolveu o problema imediato, mas também interrompeu uma
    oportunidade de aprendizagem.

    Algo semelhante pode acontecer na hora de dormir. A mãe constrói uma
    rotina, mas passa a interpretar qualquer variação como sinal de que tudo
    está errado. Em vez de observar o que a criança está comunicando, tenta
    fazer com que ela se encaixe rigidamente no horário previsto.

    O ponto não é abandonar a organização. É compreender que uma
    rotina deve ajudar a família, e não transformar cada imprevisto em uma
    disputa.

    Uma pergunta importante para esse estado é:

    “Estou oferecendo direção ao meu filho ou tentando controlar
    algo que faz parte do desenvolvimento dele?”

    Educar também envolve permitir que a criança experimente, erre, tente
    novamente e participe gradualmente daquilo que já consegue fazer.

    3.
    O estado dependente: quando a insegurança dificulta nossas decisões

    Na formação, o estado dependente, também chamado de
    dependente/vítima, é relacionado à insegurança, à dificuldade de tomar
    decisões e à busca frequente por alguém que assuma a
    responsabilidade.

    Na maternidade, podemos observar algo semelhante quando uma mãe sente
    que precisa de confirmação constante para agir.

    Ela percebe que o filho está cansado, mas não confia na própria
    observação. Consulta diferentes opiniões, compara a rotina com a de
    outras crianças e termina ainda mais insegura.

    Ou então identifica que determinado hábito já não está funcionando
    bem, mas acredita que somente outra pessoa poderá dizer exatamente o que
    fazer.

    Buscar orientação é importante. Nenhuma mãe precisa conhecer tudo, e
    contar com profissionais e uma rede de apoio pode fazer muita
    diferença.

    O problema surge quando a orientação deixa de ampliar a compreensão e
    passa a substituir completamente a capacidade de observar, refletir e
    decidir.

    Pense em uma mãe cujo filho desperta várias vezes durante a noite.
    Ela recebe uma sugestão de mudança, mas, diante da primeira dificuldade,
    sente que não será capaz de continuar sem que alguém lhe diga cada
    passo.

    Talvez o que ela precise não seja de mais uma regra, mas de apoio
    para desenvolver confiança na própria capacidade de compreender o
    filho.

    Uma pergunta possível é:

    “Estou buscando conhecimento para tomar decisões mais
    conscientes ou esperando que alguém decida tudo por mim?”

    A confiança materna não nasce de saber todas as respostas. Ela também
    se constrói quando aprendemos a observar, fazer escolhas proporcionais à
    situação e reconhecer que podemos ajustar o caminho.

    4.
    O estado cooperativo: quando conseguimos conduzir sem disputar

    No modelo apresentado na formação, a cooperação é descrita como o
    estado em que conseguimos colaborar e nos relacionar de maneira mais
    construtiva.

    Na maternidade, podemos pensar na cooperação como a capacidade de
    reconhecer que mãe e filho têm necessidades diferentes, mas não precisam
    estar em lados opostos.

    Voltemos à criança que deseja colocar os próprios sapatos.

    A mãe percebe que ela está frustrada. Em vez de tomar imediatamente a
    tarefa ou simplesmente abandoná-la, aproxima-se e diz:

    “Você quer colocar sozinho, não é? Está difícil. Eu posso segurar o
    sapato enquanto você tenta.”

    A mãe continua sendo a adulta responsável. Ela sabe que existe um
    horário, que precisam sair e que talvez seja necessário ajudar mais em
    determinado momento.

    Mas não transforma a dificuldade da criança em uma disputa de
    poder.

    O mesmo princípio pode aparecer no sono infantil.

    Se o bebê está passando por uma mudança na forma de adormecer, a mãe
    pode oferecer previsibilidade, presença e oportunidades graduais de
    aprendizagem, ajustando sua resposta à idade e às necessidades da
    criança.

    Cooperar não significa permitir tudo, retirar limites ou evitar
    qualquer frustração.

    Significa compreender que podemos estabelecer limites sem
    perder a conexão e oferecer ajuda sem impedir o desenvolvimento da
    autonomia.

    E
    quando o comportamento do meu filho desperta justamente aquilo que tenho
    dificuldade de lidar?

    Aqui chegamos a uma das reflexões mais importantes.

    Uma mãe com forte necessidade de controle pode sentir muita
    dificuldade diante de uma criança que deseja explorar, escolher e fazer
    as coisas no próprio ritmo.

    Uma mãe insegura pode se sentir ainda mais perdida diante de uma
    criança que protesta intensamente quando encontra um limite.

    E uma mãe que costuma desistir diante das dificuldades pode encontrar
    obstáculos para sustentar mudanças graduais que exigem tempo, observação
    e consistência.

    Isso não significa que a criança tenha provocado esses padrões ou que
    esteja tentando manipular emocionalmente a mãe.

    Significa que a relação entre mãe e filho envolve duas experiências
    diferentes: a de uma adulta com sua própria história e a de uma criança
    cujo desenvolvimento ainda está acontecendo.

    A criança pequena não dispõe dos mesmos recursos de linguagem,
    planejamento e regulação emocional de um adulto. Por isso, pode
    expressar frustração chorando, protestando, buscando proximidade ou
    resistindo a determinadas mudanças.

    Antes de concluir que seu filho é controlador, dependente ou
    desistente, vale perguntar:

    “O que esse comportamento pode estar comunicando sobre a fase
    de desenvolvimento e as necessidades dele?”

    Uma criança que pede ajuda para fazer algo que já conseguiu realizar
    anteriormente não é necessariamente dependente. Pode estar cansada,
    insegura, precisando de conexão ou simplesmente atravessando um momento
    difícil.

    Da mesma maneira, uma criança que insiste em fazer algo sozinha não
    está necessariamente tentando controlar a mãe. Pode estar exercitando
    uma autonomia que está começando a desenvolver.

    É justamente por isso que precisamos ter cuidado com os rótulos.

    Quando chamamos uma criança de manipuladora, controladora ou
    preguiçosa, corremos o risco de deixar de observar o comportamento
    concreto e as condições em que ele aparece.

    Como
    sair da reação automática e construir uma resposta mais consciente?

    Imagine que seu filho começa a chorar porque chegou a hora de
    desligar a televisão.

    Você já está cansada. Ainda precisa preparar o jantar, organizar a
    casa e cuidar de outras responsabilidades.

    O choro começa e, quase imediatamente, surge a vontade de gritar,
    ceder ou simplesmente sair de perto.

    É nesse momento que reconhecer nossos padrões pode fazer
    diferença.

    Não porque teremos sempre a resposta perfeita, mas porque começamos a
    perceber o que acontece antes de agir.

    Podemos desenvolver esse exercício por meio de três movimentos que
    fazem parte da filosofia da Maternidade com Propósito: observar,
    responder e oportunizar.

    Observar significa perceber tanto a criança quanto a
    nós mesmas. O que aconteceu antes do choro? Meu filho está cansado? Está
    frustrado porque a atividade terminou? E eu, como estou me sentindo?
    Estou irritada, insegura ou com medo de perder o controle?

    Responder é escolher uma atitude que considere as
    necessidades da criança e a responsabilidade do adulto. Talvez seja
    necessário acolher o choro, explicar o limite com poucas palavras e
    manter a decisão de desligar a televisão.

    Oportunizar é permitir que a criança participe
    gradualmente da construção de novas habilidades. Em outro momento,
    podemos avisar com antecedência que a atividade vai terminar, oferecer
    uma transição previsível e ajudá-la a lidar com a frustração.

    Perceba que não estamos tentando impedir toda manifestação
    emocional.

    Estamos oferecendo condições para que a criança aprenda, pouco a
    pouco, a atravessar situações difíceis com o apoio de um adulto.

    E, enquanto fazemos isso, também exercitamos nossa própria capacidade
    de responder de maneira mais consciente.

    A mãe também está em
    desenvolvimento

    Existe uma expectativa silenciosa de que, depois que uma mulher se
    torna mãe, ela deveria saber naturalmente como lidar com todas as
    situações.

    Mas a maternidade também é uma experiência de aprendizagem.

    Aprendemos a reconhecer o choro do bebê, compreender os sinais de
    sono, acompanhar as mudanças do desenvolvimento e perceber quando nossos
    filhos precisam de ajuda ou de mais espaço para tentar.

    Ao mesmo tempo, descobrimos aspectos de nós mesmas que talvez nunca
    tivéssemos observado com tanta intensidade.

    Podemos perceber nossa dificuldade de esperar, nossa necessidade de
    controlar, o medo de tomar decisões ou a tendência de desistir quando
    algo não acontece como imaginávamos.

    Reconhecer essas dificuldades não significa aceitar comportamentos
    que machucam a relação. Significa assumir a responsabilidade de
    compreendê-los e transformá-los.

    E, quando determinados padrões causam sofrimento persistente ou
    parecem difíceis de modificar, o acompanhamento psicológico pode
    oferecer um espaço importante de cuidado e elaboração.

    A cooperação não precisa ser entendida como um estado de perfeição,
    no qual a mãe nunca se irrita, nunca erra e sempre sabe o que fazer.

    Ela pode ser construída nas pequenas escolhas do cotidiano, inclusive
    quando reconhecemos uma reação inadequada, reparamos a relação e
    tentamos novamente.

    Antes
    de perguntar quem seu filho é, observe quem você se torna diante
    dele

    Talvez você tenha começado esta leitura tentando descobrir em qual
    dos quatro estados se reconhece.

    E talvez tenha percebido características de mais de um.

    Isso não precisa ser um problema.

    Mais importante do que encontrar uma classificação é perceber quais
    reações aparecem com frequência, em quais situações elas surgem e como
    influenciam sua maneira de cuidar.

    Quando seu filho chora, você sente necessidade de interromper
    imediatamente o choro? Quando ele deseja fazer algo sozinho, você
    consegue esperar? Quando uma mudança na rotina não funciona, você
    procura compreender o que aconteceu ou conclui que não vale a pena
    continuar?

    Essas perguntas não servem para medir se você é uma boa mãe.

    Elas ajudam a tornar visíveis comportamentos que, muitas vezes,
    acontecem de forma automática.

    Na Maternidade com Propósito, acreditamos que compreender o
    desenvolvimento infantil não é procurar uma fórmula que faça todas as
    crianças reagirem da mesma maneira.

    É aprender a observar cada criança, reconhecer suas necessidades e
    oferecer respostas que respeitem seu desenvolvimento.

    Mas esse olhar também precisa alcançar a mãe.

    Porque, enquanto ensinamos nossos filhos a lidar com frustrações,
    construir autonomia e se relacionar com o mundo, também temos
    oportunidades de amadurecer emocionalmente.

    Seu filho não precisa de uma mãe que nunca se desorganize.
    Precisa de uma adulta que esteja disposta a reconhecer suas reações,
    assumir sua responsabilidade e continuar construindo uma relação
    segura.

    E talvez essa seja a pergunta que vale levar para o cotidiano:

    Quando meu filho encontra uma dificuldade, estou ajudando-o a
    atravessá-la ou estou reagindo à dificuldade que essa situação desperta
    em mim?

    A resposta pode ser o começo de uma mudança importante.


    Por Dra. Carine Protasio
    Maternidade com Propósito — Ciência, observação e respeito ao
    desenvolvimento infantil.

    Nota sobre a abordagem: Este artigo foi inspirado na
    Aula 03, “Perfil Psicológico”, do Módulo de Psicologia com Dani
    Cavalcanti, da formação CNSI. Os quatro estados são utilizados como
    recurso de reflexão sobre comportamentos e relações, não como
    classificação clínica validada. Os exemplos maternos são aplicações
    interpretativas elaboradas para este artigo, e não casos descritos na
    aula. Não é possível determinar a personalidade futura de uma criança,
    nem atribuir diretamente um padrão adulto a experiências vividas em uma
    idade específica, com base nesse modelo.

    Referência de estudo: Dani Cavalcanti. Módulo de
    Psicologia — Aula 03: Perfil Psicológico
    . Material didático da
    formação CNSI.